Revivalismo/Revitalização

No início do séc. XXI observam-se transformações significativas no panorama da música tradicional portuguesa (MTP). A inscrição de práticas expressivas como o Fado (2011) e o Cante Alentejano (2014) na lista representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade (UNESCO) contribuiu para estimular novas abordagens à MTP, muitas das quais orientadas para a revitalização de práticas e instrumentos musicais. Estas abordagens configuram processos com um relevante alcance social, uma vez que configuram oportunidades de construção e transmissão de conhecimentos e de participação na vida social local. Trata-se de processos que adquirem igualmente uma funcionalidade política e económica, na medida em que geram e sustentam atividades com impacte nas economias locais, como a construção e comercialização de instrumentos, o ensino da música e a promoção de espetáculos musicais. Em diversas localidades portuguesas, instrumentos e práticas musicais foram consagrados como ícones identitários, com impacte no domínio do turismo cultural. 

Não obstante o crescente dinamismo de indivíduos e instituições implicados em ações de revitalização de instrumentos e práticas musicais em Portugal, esta realidade carece ainda de um estudo sistemático e aprofundado. O Grupo de Trabalho “Revivalismo” reúne seis investigadores que, partindo do desenvolvimento de estudos de caso em diferentes localidades portuguesas, discutem colaborativamente sobre fenómenos como a revitalização de práticas como os “Mistérios da Páscoa” e o “Ritual da Santa Cruz” e de instrumentos musicais tradicionais portugueses como o bombo, o cavaquinho, a ocarina, a viola campaniça e a viola toeira. 

É objetivo deste grupo de trabalho produzir conhecimento sobre processos de revitalização no âmbito da música: (1) identificando e dialogando com os indivíduos e instituições envolvidos nesses processos; (2) examinando o impacte de iniciativas de revitalização de práticas musicais na vida social e cultural das comunidades que as enquadram; (3) analisando projetos de patrimonialização e turistificação de práticas musicais locais e o seu enquadramento em políticas culturais delineadas por municípios e associações locais e (4) identificando e discutindo criticamente ações de salvaguarda e divulgação de práticas musicais. 

As investigações em curso articulam pesquisa em fontes históricas e metodologias de trabalho de campo e encontram referenciais teóricos em contributos recentes de autores de áreas como a etnomusicologia e a antropologia. Cada um dos estudos explora, em diferentes ângulos, o impacte social de fenómenos de revivalismo musical (Livingston 1999, 2014; Bithel e Hill 2014), perspetivando as práticas musicais como ecossistemas culturais (Moreno 2015; Schippers 2019; Titon 2009, 2009a) e examinando estratégias orientadas para a sustentabilidade de práticas musicais (Cooley 2019; Schippers e Grant 2016; Titon 2009 e 2015; Turino 2009).


“Mistérios da Páscoa” em Idanha-a-Nova: Processos de Patrimonialização e Turistificação de Práticas Musicais

António Ventura (INET-md | Universidade de Aveiro)

Esta investigação faz parte Programa Doutoral em Música, em curso no Instituto de Etnomusicologia – Centro de Estudos em Música e Dança, Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro. Integrado no projeto FCT “EcoMusic – Práticas Sustentáveis: Um Estudo sobre o Pós-Folclorismo em Portugal no século XXI” centra-se nas performances musicais dos “Mistérios da Páscoa em Idanha”, um evento turístico criado por agentes culturais do município de Idanha-a-Nova, que se realiza anualmente desde o ano 2009. Na consulta dos prospetos turísticos de Idanha-a-Nova, podemos ler que o tempo dos “Mistérios da Páscoa em Idanha” decorre durante cerca de 90 dias, desde a quarta-feira de cinzas até ao Domingo de Pentecostes. Os eventos assinalados nesses prospetos, referem-se à Encomendação das Almas, aos Martírios, aos Passos, ao Louvado Nocíssimo, Ladainhas, Procissão dos Homens, Via-Sacra e Terço Cantado, realizados em diferentes localidades do concelho. Na pesquisa preliminar observei que são realizados por grupos mistos, femininos ou masculinos, que alternam cânticos, com orações e outros atos sociais, numa performance que dizem ser “tradicional” e que pretendem ver reconhecida como Património Imaterial da Humanidade, pela UNESCO. Algumas dessas performances musicais, depois de extintas na maior parte das localidades e de um processo de descontextualização acionado por ranchos folclóricos locais ao longo do século XX, têm vindo a ser “revitalizadas” (Livingston 1999) e recontextualizadas no tempo (da quaresma/noite) e espaço (das ruas locais) definindo roteiros turísticos e destinos “culturais” (Kirshenblatt-Gimblett 1998). 

Está em curso uma candidatura da performance do “Mistérios da Páscoa em Idanha” à Lista do Património Cultural Imaterial da UNESCO, na qual participam a autarquia, eruditos locais e um conjunto expressivo de idanhenses para além do antropólogo Paulo Lima, investigador que acompanhou os processos de patrimonialização do Cante Alentejano e dos chocalhos de Alcáçovas. Argumento que nas performances do “Mistérios da Páscoa em Idanha” convergem, de modo aparentemente não conflitual, intenções e sentidos distintos, seja (i) em torno da experiência religiosa individual; (ii) da construção social do local como uma estrutura de sentimento; (iii) ou da performance como património e “destino cultural”. Este estudo propõe uma reflexão e discute criticamente o processo de revitalização dessas performances musicais.


Estudo etnomusicológico sobre o revivalismo da viola campaniça em Castro Verde

Joana Rodrigues (INET-md | NOVA FCSH)

A viola campaniça integra um conjunto de práticas performativas associadas ao contexto rural do Alentejo que nos anos 60 e 70 foram consideradas quase extintas pelos etnólogos Ernesto Veiga de Oliveira e Michel Giacometti. Ao contrário do que sucedeu com o cante alentejano, a viola campaniça e as práticas expressivas a ela associadas (balhos, modas campaniças, cante ao baldão e cante a despique) não foram objecto de folclorização, processo promovido pelo Estado Novo, ficando por isso isentas da criação de uma imagem etnográfica imposta por este regime. 

Este estudo pretende analisar o processo revivalista das práticas musicais associadas à viola Campaniça em Castro Verde, desde a década de 1980, até à atualidade. Os conceitos de “preservação”, “valorização” e “promoção” foram utilizados por diversos agentes culturais para sustentar o processo de revivalismo da viola campaniça e sua prática performativa em Castro Verde. Estes agentes culturais são constituídos por entidades particulares, autarquias e figuras locais. Será igualmente analisado o modo através do qual este processo veio transformar a viola Campaniça num “emblema” cultural do concelho de Castro Verde.


O revivalismo dos cordofones tradicionais em Portugal: o caso da viola toeira

Rui Marques (INET-md | Universidade de Aveiro)

Na década de 1960 Ernesto Veiga de Oliveira referiu-se à viola toeira como um instrumento praticamente extinto, do qual subsistiam “raros exemplares, e escassa memória” (Oliveira 1966). Em meados dos anos 1980, várias figuras ligadas à Academia de Coimbra encetaram tentativas pontuais de recuperação da viola toeira, designadamente promovendo experiências de construção deste cordofone e sensibilizando os grupos etnográficos da cidade para a importância de (re)integrar este instrumento nas suas tocatas. Não obstante, estas iniciativas não foram suficientes para recuperar a viola toeira. Nas décadas seguintes, este instrumento foi remetido para o esquecimento. 

Nos últimos anos a viola toeira vem despertando o interesse de um número crescente de construtores de instrumentos, músicos e investigadores, sobretudo na cidade de Coimbra. Este interesse traduziu-se em distintas iniciativas orientadas para a revitalização deste cordofone, entre as quais destaco (1) o envolvimento de vários violeiros na produção de violas toeiras, incluindo a realização de cursos de construção; (2) a promoção do ensino desta viola, por meio da sua inclusão na oferta formativa de escolas de música; (3) a divulgação da viola toeira em apresentações musicais, fóruns de discussão, discos e plataformas digitais e (4) o surgimento de novas abordagens performativas, promovendo uma recontextualização deste instrumento e inscrevendo-o em distintos domínios de prática musical. 

Todos os atores implicados nas iniciativas acima referidas assumem o desígnio de revitalizar a viola toeira e, na sua maioria, invocam o passado deste instrumento como modo de sustentar a validade dos seus projetos. Todavia, o conhecimento disponível sobre a prática da viola toeira no passado é escasso e fragmentado. As diversas (re)interpretações do passado geram tensões que densificam e complexificam relações entre indivíduos e instituições, comprometendo o sucesso das ações de salvaguarda e divulgação deste cordofone. Por conseguinte, e contrastando com projetos de revitalização de outras violas regionais em Portugal, o revivalismo em torno da viola toeira configura-se como um fenómeno difuso, que se traduziu na criação de vários ‘núcleos’ revivalistas na cidade de Coimbra.

A investigação em curso sustenta-se em pesquisa em fontes históricas e em trabalho de campo e visa: (1) compreender, dialogando com construtores de cordofones, músicos e investigadores, as características organológicas, as técnicas de construção e execução, os repertórios musicais e os contextos de utilização associados à viola toeira; (2) mapear e documentar ações de salvaguarda e divulgação da viola toeira e identificar os agentes nelas implicados, compreendendo (2.1) as razões que os levaram a comprometer-se com a revitalização da viola toeira e (2.2) os valores subjacentes a este fenómeno (no contexto do Pós-25 de Abril e na atualidade); (3) discutir criticamente o alcance social deste fenómeno revivalista, considerando (3.1) a sua capacidade de estabelecer oportunidades de transmissão de conhecimento (nos domínios da construção de instrumentos e da aprendizagem musical) e de participação na vida social local e (3.2) a sua funcionalidade política e económica, considerando o impacte local de atividades como a construção e comercialização de instrumentos musicais, o ensino da música ou a promoção de apresentações musicais.


Sustentabilidade, resiliência e ativismo- Revivalismo de música em Festas das Cruzes, Portugal

Sheila Nunes da Silva (INET-md | Universidade de Aveiro)

A música é um dos elementos que dão características às festas religiosas. Estas festas envolvem relações interpessoais, poder, política, economia e religião, como ainda, a construção local de identidades. A minha proposta estuda as relações apresentadas na Festa da Santa Cruz que acontecem na Aldeia da Venda, Alentejo. Neste estudo analiso o revivalismo a partir do estudo dos discursos e práticas de sustentabilidade da cultura oral. A investigação apresenta o contexto da Festa da Santa Cruz considerando-o um cenário de mudanças sociais, silêncios, reinvenção e metamorfose, um espaço ambíguo, cujos contrastes ritualísticos revelam a memória individualizada e a memória coletiva. Portanto, no terreno em estudo, a metodologia conta com a imersão em campo por meio da observação participante, uso da etnografia, das técnicas da história oral e das práticas dialógicas com a comunidade.

Palavras-chave: Diversidade; Revivalismo; Sustentabilidade Cultural; Memória; Festa da Santa Cruz.


Revivalismo/Revitalização

Making of “Retimbrar de trás para a frente” – Por Rosário Pestana, Cláudia Ramos, Sara Yasmine, Augusto Lado

Retimbrar de tràs p’rá frente – O percurso até Levantar do Chão – dá a conhecer o processo de criação, preparação e produção do Álbum Levantar do Chão, um disco do coletivo Retimbrar que contou com a participação de outros músicos e grupos em tempo de pandemia. A participação de todas as pessoas envolvidas neste projeto surgiu como resposta ao desafio inesperado criado pela situação pandémica declarada em 2020.

Investigadores e investigadoras enfrentavam o silenciamento dos espaços performativos e a dificuldade de interagir e dialogar entre si a experiência e conhecimento de cada um. O auditório virtual abriu-se então como uma janela de esperança. Retidos em casa, Cládia Ramos, Rosário Pestana e Rui Marques acompanharam o processo de edição do CD através do olhar e da escuta dos próprios músicos de Retimbrar. 

Foi elaborado um plano de trabalho no âmbito de uma prestação de serviços, o qual passou pelo registo de som e imagem das diferentes fases do processo de edição do álbum e pela elaboração conjunta de etnografias nos formatos de podcast, documentário e making of.

O making of Retimbrar de trás p’rá frente é um dos resultados desse processo de colaboração entre músicos, investigadores e o videógrafo Augusto Lado.

Os podcasts Retimbrar pelos Cotovelos foram realizados no âmbito do projeto EcoMusic – Práticas sustentáveis: um estudo sobre o pós-folclorismo em Portugal no século XXI, em colaboração com o coletivo Retimbrar. Retimbrar, mais do que um grupo, é um movimento, originário da cidade do Porto, que procura pensar e criar a partir das tradições musicais portuguesas.

Retimbrar pelos Cotovelos é um conjunto de 15 podcasts que, conduzidos pela locutora Sara Pereira, nos dá a conhecer os músicos do coletivo, bem como músicos que colaboraram no segundo e mais recente CD, Levantar do Chão, realizado em tempo de pandemia.  

Os podcasts foram produzidos a partir de entrevistas realizadas em 2021/2022 por Maria do Rosário Pestana, coordenadora do projeto, Cláudia Ramos, aluna do mestrado em Etnomusicologia e Sara Yasmine, membro do coletivo.

Podcast Quico Serrano

Neste primeiro podcast ouvimos Quico Serrano, produtor musical do disco, numa entrevista conduzida por Cláudia Ramos. Quico tem vindo a trabalhar com diversos grupos e participou com Retimbrar na edição deste disco, Levantar do Chão.

Podcast Pancho

Andrés “Pancho” Tarabbia é o músico e fundador do coletivo Retimbrar. Foi Pancho que, em 2008, fundou o coletivo, que começou por ser um grupo de percussão, sendo as suas apresentações em arruadas. Este podcast foi desenvolvido a partir de uma entrevista feita por Cláudia Ramos.

Podcast Tiago Soares

Tiago Soares, também músico dos Retimbrar, teve a sua formação musical em percussão. Tiago é um dos músicos  que já fazia parte de Retimbrar quando ainda se apresentavam em arruadas. Colaborou no primeiro disco do coletivo, Voa Pé. Este podcast foi produzido a partir de uma entrevista orientada por Rosário Pestana.

Podcast Miguel Ramos

Neste podcast ouvimos Miguel Ramos, guitarrista do coletivo, a partir de uma entrevista orientada por Rosário Pestana. Foi em 2012 que contactou pela primeira vez com Retimbrar, no Porto, tendo participado nos dois discos já lançados por Retimbrar. Este podcast tem como base uma entrevista conduzida por Rosário Pestana.

Podcast Uxía

Desta vez, estamos à conversa com Uxía, artista galega convidada a participar neste disco, Levantar do Chão. O papel que Uxía desempenha no coletivo relaciona-se com o canto e a música em que participou chama-se Maçãzinha. Este podcast foi realizado a partir de uma entrevista realizada por Sara Yasmine.

Podcast Jorge Loura

Neste podcast estamos à conversa com Jorge Loura, membro dos Retimbrar. Jorge é guitarrista no coletivo. À semelhança de outros membros, Jorge começou por conhecer o trabalho do grupo, tendo sido convidado posteriormente a fazer parte do mesmo. Este podcast foi produzido a partir de uma entrevista realizada ao músico por Cláudia Ramos.

Podcast Marta Pereira da Costa

Neste podcast ouvimos Marta Pereira da Costa, artista que colaborou com o coletivo na realização do disco. Apesar de ter a sua formação inicial em piano e guitarra clássica, o seu instrumento de eleição é a guitarra portuguesa e foi com esta que participou na música Rosa Tirana. O podcast da Marta foi realizado a partir de uma entrevista feita por Rosário Pestana.

Podcast Miguel Arruda

Desta vez, estamos à conversa com Miguel Arruda, artista que colaborou com Retimbrar na edição do disco Levantar do Chão. Miguel é guitarrista e participou na música Saudades do Futuro juntamente com o Rancho Folclórico de Santa Eufémia de Pé de Moura. Este podcast foi produzido a partir de uma entrevista feita ao músico por Cláudia Ramos.

Podcast Daniela Castro

Neste podcast, estamos à conversa com Daniela Castro, membro dos Retimbrar. Daniela desempenha o seu papel na área das cordas, mais especificamente no violino. O seu primeiro contacto com o coletivo foi enquanto público, no entanto, agora encontra-se efetiva no grupo. Este podcast foi produzido a partir de uma entrevista orientada por Cláudia Ramos.